segunda-feira, 23 de março de 2015

Tornando visível as dez principais atividades que integram o exercício da profissão acadêmica de pesquisador/professor

 Artigo enviado ao Jornal da Ciência pelo sociólogo Carlos José Saldanha, pesquisador em Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz e membro do Comitê de Assessoramento de Ciências Ambientais do CNPq

Em um momento da vida nacional de aceleração da degradação ambiental, desaceleração econômica intensa, retração do investimento público e privado, rápida elevação dos juros para além de patamares já proibitivos, escassez de novos empregos, mudanças nos direitos trabalhistas e previdenciários e corte de verbas das instituições de ensino e pesquisa superior (IES), faz-se necessário apresentar para a sociedade uma síntese das principais atividades de uma categoria de trabalhador insubstituível no processo de construção do desenvolvimento sustentável do país, o pesquisador/professor.
Independente do tipo de administração (pública ou privada), de missão institucional (universidades federais, estaduais e municipais, centros universitários, institutos, faculdades integradas, faculdades e escolas), de formação educacional e de titulação dos pesquisadores/professores, do regime e das condições materiais de trabalho em suas instituições, bem como dos traços estruturais dos projetos desenvolvidos (em redes colaborativas, com ou sem plataformas multiusuários e/ou multi-institucionais…), é possível sintetizar, sem ser reducionista, o trabalho desenvolvido por homens e mulheres de ciências e de tecnociências, agrupando em dez suas principais atividades, a saber:
Primeira: capacitar recursos humanos (dar aulas na graduação e na pós-graduação, orientar teses, dissertações, monografias e iniciar jovens ao mundo das ciências e das tecnociências), porque o governo, a indústria, o comércio e as IES têm demandado cada vez mais força de trabalho qualificada e especialistas com grau universitário para poder alavancar a economia nacional.
Segunda: construir, manter e atualizar a infraestrutura do local de trabalho, que pode ser um laboratório e/ou uma sala de professor(a)/pesquisador(a) para o desenvolvimento de projetos de pesquisa e formação de recursos humanos, porque as tecnologias da informação e comunicação se desenvolvem com tal rapidez que equipamentos, softwares e redes precisam ser atualizados em intervalos de tempo cada vez mais curto.
Terceira: organizar e gerir bases de dados para as pesquisas e das pesquisas, diante do número de pessoas nelas envolvidas e o número de publicações que produzem em velocidade crescente.
Quarta: acompanhar, pari passo, o que fazem os colegas e/ou laboratórios e/ou instituições concorrentes no desenvolvimento de temas de interesse restrito de partes selecionadas de uma disciplina, porque, na prática das ciências e das tecnociências, há pouco prêmio para a simples duplicação de conhecimentos produzidos e segundo o que outros produziram: as ciências e a tecnociências, para crescerem, avançarem na formulação de questões novas de pesquisa e ampliarem os conhecimentos até então produzidos, fazem-no olhando para a empiria, apoiadas nos ombros dos(as) colegas vivos(as) e mortos(as), nunca ficando sentadas e descansando sobre esses ombros, por mais reconfortantes que sejam.
Quinta: atender às demandas dos setores da administração e da gestão da pesquisa e do ensino e enfrentar a morosidade de processos de compra e/ou liberação alfandegária de insumos básicos das atividades de P&D, o que gera perda de insumos e atrasos nos cronogramas dos projetos e colaborações nacionais e internacionais, obrigando o(a) pesquisador(a) a se envolver diretamente em tarefas burocráticas de compras públicas alheias a sua formação educacional com vistas a encontrar soluções que viabilizem o processo de produção de conhecimentos científicos robustos e sua permanência no competitivo mundo internacional das ciências e das tecnociências.
Sexta: organizar e/ou participar de eventos técnico científicos, divulgando o conhecimento produzido e atualizando suas informações sobre o que outros(as) pesquisadores(as) e grupos de pesquisa estão fazendo sobre o(s) seu(s) tema(s) de pesquisa(s).
Sétima: produzir e publicar artigos científicos, capítulos de livros, trabalhos em anais, relatórios de pesquisa, manuais técnicos, organizar livros e números temáticos em revistas, porque um(a) pesquisador(a) improdutivo(a) não é bem-aceito(a) pelos pares e pelas agências de fomento.
Oitava: fazer divulgação científica, por meio da redação de textos escritos em uma linguagem acessível ao grande público, através de publicações de cunho popular, do tipo que é vendido em bancas de jornais a fim de tornar sua pesquisa conhecida, fora do âmbito acadêmico, contribuindo para o cumprimento de uma das grandes promessas da democracia contemporânea: a educação para a cidadania, apoiada em políticas públicas saudáveis no âmbito local, capazes de promover o bem-estar dos cidadãos e lhes dar o instrumental educacional para transformá-los em agentes ativos do processo político e da gestão ambiental, em prol de uma sociedade sustentável.
Nona: participar de processos de avaliação ad hoc de projetos de pedido de financiamento a agências de fomento e formação pós-graduada, obriga- tório para quem tem bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq, e de artigos científicos de revistas e livros de editoras em que fazem parte do comitê editorial ou são convidados para tal.
Décima: participar de reuniões colegiadas de instâncias de gestão e/ou administração da pesquisa científica para não ficar à margem do processo decisório da política científica local e arcar com as consequências negativas de decisões tomadas por terceiros que incidem sobre o andamento e a realização de suas pesquisas.
Quase todas essas dez atividades precisam ser desenvolvidas com base na integridade ética da pesquisa e do ensino segundo as diretrizes estabelecidas pelas IES e/ou pelas agências de fomento nacionais e internacionais, com a instituição local de comitês de ética na pesquisa observando a adoção ou não dessa prática na metodologia dos projetos de pesquisa.
Através das atividades desses profissionais, fauna, flora, clima, solo, subsolo, composição físico-química das águas, população humana e não humana, economia etc., tornaram-se mais visíveis com os pesquisadores fixando o foco de suas narrativas na leitura de resultados alfanuméricos alcançados. É o nosso olhar instrumentalizado – para tornar translúcidos os elementos e suas inter-relações que configuram a dinâmica dos modos de existência de todos os entes que percebemos como sendo a natureza – que tem aguçado a nossa consciência da situação em que se encontra a vida na sociedade brasileira e na Terra. Mulheres e homens de ciências e de tecnociências que veem narrando as transformações da sociedade brasileira e da Terra, com base em uma cultura epistêmica transnacionalizada, agem de forma pró-ativa, e em número crescente, ao participarem do debate público que se dá em um conjunto descentrado, plural e complexo de conversações sobrepostas, ocorrendo em múltiplos e divergentes lugares. As ciências e as tecnociências têm contribuído para a realização da importante missão da democracia diante das formas contemporâneas de degradação ambiental: desenhar instituições que capacitem os cidadãos não apenas a se engajarem ativamente, de forma individual e/ou associativa, em questões que afetam suas vidas mas, também, a fazerem julgamentos verossímeis sobre quando e como se manterem combativos ou passivos.
Referência bibliográfica:
MACHADO, C.J.S. Desenvolvimento sustentável para o Antropoceno: um olhar panorâmico. Rio de Janeiro: E-papers, 2014

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Injustiça Territorial: Estudantes e professores voltam a ocupar a reitoria da UECE

A má distribuição nas vagas de professores para a capital e no interior leva estudantes e professores a ocuparem novamente a reitoria da universidade na tarde desta segunda-feira (26).

O governador irá se reunir às 14h com o reitor e com os diretores dos centros da Capital e do interior, para discutir a redistribuição dessas vagas.

Após a suspensão da greve da Universidade Estadual do Ceará (Uece) em 9 de janeiro de 2015, a  distribuição nas vagas deprofessores para a capital e no interior levou estudantes e professores a ocuparemnovamente a reitoria da universidade desde a tarde desta segunda-feira (26). O governadorCamilo Santana irá se reunir às 14h com o reitor e com os diretores dos centros da Capital e do interior, para discutir aredistribuição dessas vagas.
A demanda emergencial da Uece por professor é de 163, mas o governo autorizou apenas 113 vagas (mais 7 vagas para o curso novo de Itapipoca, totalizando 120 vagas) para a primeira etapa do concurso (2015). Isso representou uma diminuição de 30% em relação à necessidade emergencial. Diante disso, a reitoria da Uece utilizou como critério estabelecer um corte linear de 30% para todos os centros/faculdade da Uece. Isso gerou um grande desconforto e indignação, sobretudo nas faculdades onde a carência de professores é extremante elevada. ''Hoje existem vários cursos bem abaixo de um mínimo necessário para o normal funcionamento de um curso de graduação.'' Explica o prefessor Célio Coutinho.
Na faculdade de Quixadá (FECLESC) funcionam 8 cursos de graduação e a reitoria está disponibilizando apenas 2 novas vagas, já na de Iguatu (FECLI), funcionam 5 cursos de graduação e foi disponibilizado apenas 10 vagas. Se esse problema não for resolvido ovestibular para vários cursos nessas regiões terá que ser cancelado.
O sindicato ao término da greve sugeriu à reitoria da universidade como principal critério o preenchimento prioritariamente das vagas dos cursos que se encontram em colapso por falta de professor e que por consequência tiveram que deflagrar a greve em 2013/2014/2015. A reitoria não aceitou a sugestão do sindicato. Foram realizadas cinco reuniões e a reitoria não declinou de seu método equivocado de distribuição de vagas na Uece e os problemas não foram solucionados. Afirma Célio.
Ainda de acordo com o professor,''diante dessa intransigência e insensibilidade da reitoria, há 17 dias, professores e estudantes dessas 2 faculdades, com o apoio da SINDUECE e do movimento estudantil, decidiram ocupar o gabinete do Reitor da Uece, no campus do Itaperi, como ato de protesto e reivindicam a redistribuição urgente das vagas. Essas 2 faculdades estão reivindicando apenas um acréscimo de mais 21 professores efetivos para o interior, em carater emergencial, para não permanecer em colapso por falta de professor.''

Fonte: Diário do Nordeste 27/01/2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Teor autoritário faz Reitoria da UECE voltar atrás em Portaria.

Portaria proíbe abrigo e alimentação de animais

16.01.2015

Documento assinado pelo reitor da Uece causou polêmica por citar punições no caso de descumprimento

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A Reitoria alega como preocupações a alta taxa de abandono de animais no campus e o crescimento desordenado da população dos bichos

Foto: José Leomar

Uma portaria publicada na última terça-feira pelo reitor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), José Jackson Coelho Sampaio, causou controvérsia entre estudantes, funcionários e outras pessoas nas redes sociais. O gestor da Uece decidiu proibir o abrigo, a permanência consentida e a alimentação de animais no interior dos ambientes de estudo e trabalho de uso individual e coletivo.

O documento determina ainda que tanto os servidores quanto os estudantes que não cumprirem as regras vão receber uma notificação no registro funcional e, no caso de reincidência, serão passíveis de punições regimentais, sem prejuízo das demais sanções de natureza penal, cível, administrativa ou trabalhista.

O conteúdo da portaria foi motivo de revolta nas diversas redes sociais. Perfis de alunos e servidores no Facebook reclamaram da medida punitiva a pessoas que procuram alimentar os gatos e cachorros que habitam os 104 hectares de extensão do Campus do Itaperi.

Em face dos comentários negativos, a Reitoria da Uece lançou, no fim da tarde de ontem, nota de esclarecimento sobre as necessidades de saúde e de controle da população de cães e gatos no ambiente acadêmico.

A administração da universidade expõe que os debates em relação à presença dos animais acontecem há muito tempo, de modo recorrente, e os diagnósticos costumam mapear os mesmos problemas. O primeiro deles seria a alta taxa de abandono dos animais por moradores do entorno das dependências do local. O crescimento desordenado da população de animais seria outra preocupação.

Além disso, há também a má distribuição de alimentos aos gatos realizadas pelas pessoas que, muitas vezes, colocam restos de comida diretamente no chão, em qualquer lugar; o aumento dos riscos dos humanos de contraírem zoonoses e, por fim, a convivência conflituosa entre os animais e pessoas alérgicas nos ambientes de estudo, pesquisa e trabalho.

Solução

Pensando nisso, a Universidade coloca que a direção da Faculdade de Veterinária (Favet) se dispôs a elaborar um projeto de enfrentamento do problema em sua complexidade, a partir da perspectiva preventiva e educacional. Ressalta ainda que a convivência das pessoas com os animais deve ser voluntária e consentida, e não imposta pelo interesse de alguns, fato que motivou muitas queixas na Ouvidoria da Uece durante o segundo semestre de 2014. A instituição relata casos de servidores que foram mordidos por cães e gatos, além da reclamação de mau cheiro por parte de visitantes.

A nota informa ainda uma série de ações imediatas na tentativa de resolver a situação, como colocar placas no campus com informações da legislação que tipifica o abandono de animais como crime, determinar que não se acolha e alimente cães e gatos em ambientes de estudo e trabalho, implantar ilhas de alimentação dos animais em locais estratégicos e com ração adequada, criar programas de educação em saúde animal e programas de vacinação, castração e cuidados clínicos, além da instauração de uma comissão coordenada pela Favet para monitoramento das atividades.

Mudanças

A professora da Faculdade de Veterinária Adriana Pinho Pessoa esclarece que, antes de assinar a portaria, o reitor da Uece solicitou que docentes da Favet analisassem o conteúdo. Entretanto, as mudanças sugeridas não chegaram ao conhecimento de José Jackson, que acabou assinando a primeira versão da portaria, que foi publicada.

"Em reunião com ele após as reclamações, apresentei as propostas de alteração e ele imediatamente acatou. As penalidades previstas na portaria são previstas no caso de desrespeito a qualquer outra norma da Universidade, mas como foi colocada no conteúdo da portaria, tomou um sentido muito pesado, o que não é a intenção", conta Adriana.

Ela acrescenta ainda que, em dezembro do ano passado, a Favet apresentou o projeto de convivência com os animais, que foi aprovado pela alta administração da Uece. Ressalta que os animais poderão continuar a ser alimentados, mas em outras partes do campus mais apropriadas. "O propósito não é punir. O nosso projeto tem um caráter educativo. Queremos mudar o perfil das pessoas que alimentam esses animais, para evitar maiores problemas", conclui.

Ranniery Melo
Repórter

Fonte: Diário do Nordeste.